Cosmovisões brasileiras: Jeitos de sonhar e criar o Brasil

Tive a oportunidade de viajar e viver pelo Brasil e outros países da América do Sul nos últimos sete anos. Estou falando dessas viagens sem data de retorno, sem pressa ou aperreio de voltar; por vezes, fiquei mais do que devia numa ilha e numa grande metrópole sul-americana. Tive tempo de ter uma padaria preferida em cada canto, introduzir gírias novas no meu vocabulário, ganhar um acento colombiano no espanhol, fazer amigos de diversas partes dessa terra e trazer pra casa algumas peças de artesanato popular. Trabalho com comunicação quase no mesmo tempo em que decidi sair por aí de mochila, pouco dinheiro e muito medo. Fui freela, dei aula, colaborei na construção de áreas e processos, tive sucessos e fracassos.

A vida adulta e o trabalho têm dessas. Não sei o que veio primeiro: meu orgulho de ser brasileira e o interesse imenso pelo que acontece nos nossos interiores ou o conteúdo, que chegou pra mim meio como uma saída pra realizar aquele sonho de criança de ser escritora (ainda que de mídias sociais e blogs). Acontece que, em metade dessa viagem e carreira, tive contato com o universo da pesquisa e estratégia. Bateu, de repente, que meu negócio poderia estar ali, ajudando a construir o futuro também. Mas o desconforto veio logo em seguida. Acredito que, para além da realidade vs. expectativa, da insegurança e de um mercado extremamente competitivo, o bicho que me mordeu mais doído foi o da colonialidade das narrativas de inovação. Você não precisa ser tão radical e sair por aí viajando sem muitos recursos pra entender o que vou te contar a seguir. O Brasil é grande em território, gente e cultura. Se você abrir uma janela nova no Google, vai encontrar iniciativas inovadoras para problemas complexos nos quatro cantos dessa terra. A gente sonha em brasileiro, mas enfia goela abaixo e projetos adentro dezenas de referências do hemisfério norte.


Isso não significa que referências externas não sejam valiosas – são, e muito. O problema é quando passamos a enxergá-las como padrão, enquanto as soluções que nascem daqui, moldadas pela nossa realidade, são vistas como improviso, gambiarra, alternativa de segunda categoria. A inovação brasileira existe, mas precisa se provar o tempo todo. O curioso é que essas soluções já estão aí, muitas vezes há séculos, mas pouca gente olha pra elas como referência. O mercado de inovação e tendências segue encantado com cases que vêm de fora, enquanto aqui se reproduz uma lógica de dependência intelectual e cultural que tem raízes fundas na nossa história. E eu me pergunto: por que ainda precisamos da validação externa pra acreditar na força do que criamos? Talvez a gente precise se reencantar com as nossas raízes e buscar metodologias pra aprender a sonhar em brasileiro.

Vi a Tarse Cabello, da Cosmo Brasileira, falar sobre a importância de descentralizar a fonte de conhecimento para descolonizar o pensamento. E faz tempo demais que seguimos sustentando fórmulas importadas, enquanto temos — dentro de casa — fontes inesgotáveis de saberes e soluções criativas. A questão não é apenas valorizar o que nos cerca, mas reconhecer que a forma como aprendemos e aplicamos conhecimento está diretamente ligada a quem detém o poder de definir o que é inovação, inteligência ou sucesso. Há muito conhecimento sendo produzido que poderia estar moldando o presente e o futuro de forma mais autêntica. Mas, para isso, precisamos questionar: por que ainda olhamos tanto pra fora quando precisamos de inspiração? E o que podemos fazer para fortalecer e difundir as referências que já temos?

A gente passa muito tempo se formando em técnicas, metodologias e outros jeitos de fazer acontecer boas novas no mercado; talvez um pouco demais com essa visão sistêmica e utilitária dos nossos saberes, a gente tenha criado nosso próprio elefante na sala: a ausência terrível do imaginário. Para além da constatação de uma catástrofe iminente ou de uma ilusão utópica, encarar o nosso mundo como ele não é só o nosso desafio pessoal, mas também nosso trabalho. Lá em meados de 2021 (ou 2022, não me recordo bem), escrevi um artigo chamado Protopia Brasileira para a Box1824, tratando de desmistificar alguns mitos do que a gente conhece sobre o jovem brasileiro, da ficção como esse lugar apenas do entretenimento e também da possibilidade de apenas dois caminhos viáveis para a ficção futurista — a distopia e a utopia. Muito antes disso e muito pra depois da publicação dessa newsletter, acredito que a gente precisa muito mesmo (com urgência) de uma ficção especulativa legitimamente brasileira. Como estrategista, sou do time que precisamos dessa forma de contar história pra extrapolarmos nossas discussões sobre o presente para imaginar — e criar — cenários futuros. Eu concordo e sempre trago pra conversa aquele pensamento do Ailton Krenak pra gente não se render às narrativas de fim do mundo. Trago aqui palavras que não são minhas, mas que explicam muito melhor o que quero que você saiba:

"Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover. [...] Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história."

Ailton Krenak

Ontem estava assistindo um episódio da quinta temporada de sintonia e o personagem do Christian Malheiros falou algo que ressou muito comigo: "Gente como a gente morre quando para de sonhar". Não podemos excluir o contexto dessa fala, mas trazê-la para essa conversa onde estamos pensando sobre jeitos de criar novas realidades. Primeiro, a gente precisa reaprender a sonhar.

Em algum momento, na minha vida profissional trabalhando nesse meio publicitário o sonho deixou de existir como uma aspiração coletiva somente. Me vi ali também naquela cena da Rita de Sintonia em crise por ser uma pessoa que quer mudar a realidade sendo impedida pelo sistema. A gente tem realmente coisa que poderia ser diferente, mas não é. A próxima batalha tá longe de ser a última. Quem sonha por um futuro que não é só pra si sabe que existem outros jeitos de imaginar e construir o amanhã. E sabe também que é fundamental ter muita gente diversa nessa mesa. Isso vale pra tudo: da criação e revisão de políticas públicas à produção de um roteiro audiovisual.

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