Amizades em recessão

Até me formar na faculdade, minha vida social era uma mistura de grupos: universidade, trabalho, festas, iniciativas culturais, além dos amigos da escola e das aulas que eu fazia para me manter ativa. No início dos meus vinte anos, fazer amizades parecia algo quase automático. Um grupo levava a outro, e assim eu ia construindo conexões sem nem perceber.

Com o tempo, minha agenda social começou a mudar. Aqueles grandes encontros se transformaram em conversas rápidas, encontros ocasionais e, eventualmente, nas clássicas desculpas como "Hoje não posso sair". A vida adulta trouxe trabalho, contas para pagar e, com isso, as amizades também mudaram. Elas não perderam seu valor, mas se tornaram mais escassas e fragmentadas.

Esse cenário é comum para muitos jovens adultos, especialmente no Brasil. Nos últimos vinte anos, fazer e manter amizades se tornou um desafio ainda mais complexo. A pandemia, as crises políticas e as mudanças climáticas moldaram um novo contexto social, onde as conexões se tornaram mais frágeis. Onde antes tínhamos encontros semanais e saídas espontâneas, agora temos mensagens rápidas no WhatsApp e planos que muitas vezes são cancelados.

Em 2020, a Ipsos entrevistou 15 mil pessoas de cinco países da América Latina e constatou que essa tendência também está presente na região. Segundo a pesquisa, 36% dos brasileiros entrevistados afirmaram sentir-se sozinhos, colocando o Brasil no topo do ranking elaborado pela consultoria.

O papel das amizades na vida adulta

As amizades sempre desempenharam um papel essencial na vida dos brasileiros. Elas formam uma rede de apoio emocional, sendo muitas vezes o primeiro lugar para onde recorremos em momentos difíceis. Uma pesquisa da Preply revela que 36,4% dos brasileiros preferem confidenciar questões pessoais e profissionais aos amigos, mais até do que a parceiros românticos e familiares.

A frequência dessas interações também permanece alta: 87% dos entrevistados conversam com amigos diariamente ou semanalmente, principalmente por meio de aplicativos como WhatsApp e Telegram. Mas, apesar do alto índice de interação digital, 42,4% ainda preferem encontros presenciais, o que demonstra a importância do contato físico para fortalecer esses laços.

Mesmo assim, as dinâmicas estão mudando, e o ambiente de trabalho tornou-se um dos principais lugares para a formação de novas amizades. Cerca de 53,4% dos entrevistados na pesquisa afirmaram criar laços significativos no ambiente profissional, o que faz sentido em uma sociedade onde passamos mais tempo com colegas do que com amigos de longa data. Isso também reflete como nossas rotinas impactam nossa capacidade de manter essas conexões.

A pandemia de COVID-19 acelerou muitas dessas mudanças. Dados do PoderData indicam que 28% dos brasileiros têm, no máximo, um amigo próximo, enquanto 56% possuem entre dois e cinco amigos. Isso significa que, durante o período de distanciamento social, muitas pessoas reduziram seu círculo de amizades, enquanto outras fortaleceram os laços com os amigos mais próximos.

Nesse contexto, o valor das amizades profundas se tornou ainda mais evidente. A crise forçou muitos a refletirem sobre quem realmente queriam em suas vidas e quem estava disposto a manter contato, mesmo em meio ao caos. No entanto, para outros, a pandemia trouxe um crescente sentimento de solidão, à medida que as interações sociais se tornaram mais difíceis e os vínculos mais frágeis.

Uma questão de gênero?

É interessante observar como as amizades femininas desempenham um papel único nesse contexto. Em um mundo que frequentemente prioriza relacionamentos românticos e familiares, as amizades entre mulheres surgem como espaços de apoio, reciprocidade e resiliência. A antropóloga Mirian Goldenberg enfatiza que essas amizades não apenas trazem alegria e bem-estar ao longo das diferentes fases da vida, mas também desempenham um papel crucial na construção de uma velhice significativa.

Amigas compartilham momentos de vulnerabilidade, cuidam umas das outras e constroem uma intimidade que transcende os papéis tradicionais de mãe, filha ou parceira. Isso também reflete o quanto essas relações são fundamentais em tempos de crise, quando o suporte emocional se torna ainda mais vital.

No entanto, essa dinâmica não se aplica igualmente a todos. Os homens, em particular, vêm enfrentando uma crescente "epidemia de solidão". Estudos sugerem que, à medida que envelhecem, muitos homens têm dificuldade em manter amizades profundas. A pesquisa de Jessica D. Ayers destaca que as amizades são essenciais para a saúde mental e física, independentemente do gênero. No entanto, a pressão social que frequentemente dita que os homens devem ser "autossuficientes" cria barreiras emocionais que dificultam o desenvolvimento de conexões mais próximas.

Redefinir o significado da amizade, especialmente para os homens, pode ser uma forma de combater essa solidão. Amizades baseadas em honestidade, lealdade e empatia são essenciais para criar laços duradouros.

Amizades resilientes em tempos de crise

Diante desse cenário, novos espaços de socialização e conexão estão surgindo. Se você esteve no TikTok recentemente, provavelmente viu uma onda de pessoas começando novos hobbies, incluindo a cerâmica.

Esses workshops ganharam popularidade como pontos de encontro para quem busca novas amizades e formas de aliviar o estresse do dia a dia. Esses espaços não apenas oferecem a oportunidade de aprender uma nova habilidade, mas também criam um ambiente colaborativo onde as pessoas podem se conectar, compartilhar histórias e, talvez, formar novas amizades.

Além das atividades manuais, a prática esportiva também vem ganhando popularidade. Já estamos familiarizados com o movimento #RunCore, mas, além da busca pela saúde física e pelo exercício, a corrida também permite que os participantes encontrem uma comunidade engajada no bem-estar e na coletividade. Segundo dados da Tickets Sports, a maior plataforma de inscrições para eventos esportivos no Brasil, foram realizadas 1.181 corridas pelo país em 2022. Em 2023, esse número saltou para 1.421—um aumento de 20%.

Em 2020, mulheres apaixonadas por corrida formaram um grupo chamado "Amigas que a Corrida me Deu", que continua reunindo mulheres que se apoiam e promovem ações sociais importantes em Teresópolis. Já são 300 participantes e, embora a corrida seja a atividade principal, algumas preferem caminhar, mostrando como o grupo é dinâmico, leve e diverso, permitindo que cada mulher vá no seu próprio ritmo e nível de conforto.

Na busca por novas amizades, os grupos começaram a sair do Facebook e se espalhar pelas redes sociais. No TikTok, o "MAPA DAS MINAS" se tornou popular por reunir mulheres que não se conheciam para saírem juntas. Elas vão a restaurantes, organizam clubes de leitura, frequentam bares e fazem atividades coletivas para criar novos laços femininos e explorar a cidade de São Paulo.

A recessão das amizades não é apenas uma redução no número de amigos; é um reflexo de como estamos vivendo em um mundo em constante mudança. À medida que nossas rotinas se tornam mais complexas e os desafios globais mais evidentes, as amizades podem ser a força que nos ajuda a permanecer resilientes.

Nesse cenário, as marcas têm a oportunidade de se posicionar como facilitadoras de novas conexões e experiências. O que antes era dominado pelo consumo passivo de produtos e serviços está se transformando em uma busca por experiências que fortaleçam os laços humanos.

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